A cúpula do PL e lideranças do Centrão minimizaram publicamente a queda do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na mais recente pesquisa Datafolha, mas admitem preocupação com possíveis novos desdobramentos do caso “Dark Horse”, que já provoca desgaste político e aumenta dúvidas sobre a competitividade do parlamentar na disputa presidencial de 2026. As informações são do jornal O Globo.
Segundo o levantamento divulgado nesta sexta-feira (22), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou de 38% para 40% das intenções de voto no cenário de primeiro turno, enquanto Flávio recuou de 35% para 31%. Com isso, a diferença entre os dois candidatos saltou de 3 para 9 pontos percentuais em apenas uma semana.
Em um eventual segundo turno, Lula aparece com 47% das intenções de voto, contra 43% de Flávio Bolsonaro. Na pesquisa anterior, realizada antes da repercussão da crise envolvendo o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro, ambos estavam empatados com 45%.
Nos bastidores do PL, a avaliação é de que a oscilação era esperada diante da repercussão negativa do caso e ainda pode ser revertida. Apesar disso, dirigentes da legenda reconhecem reservadamente que novos fatos podem agravar o cenário político do senador.
PL tenta conter desgaste político
A ala mais pragmática do PL, ligada ao presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, avalia que a queda nas pesquisas ainda é “recuperável”. Integrantes do partido afirmam que, até o momento, o que veio a público não justifica substituir Flávio Bolsonaro na corrida presidencial.
Mesmo assim, dirigentes admitem preocupação com o surgimento de novas provas ou conteúdos envolvendo o senador. Entre aliados, existe receio de que imagens, vídeos ou outros elementos comprometedores possam inviabilizar politicamente a candidatura.
O caso “Dark Horse” ganhou força após a divulgação de áudios e conversas sobre cobranças feitas por Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do banco Master, para financiar um filme sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro (PL). A crise provocou desconforto entre aliados, aumentou a tensão com partidos do Centrão e levou integrantes da pré-campanha a revisar a estratégia eleitoral para 2026.
Michelle segue no radar do PL
Mesmo diante do desgaste, dirigentes do PL afirmam que a legenda não pretende abrir mão da candidatura de Flávio Bolsonaro neste momento. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro continua sendo vista como uma alternativa eleitoral forte, mas ainda sem estrutura política nacional consolidada.
Segundo aliados, Michelle concentra atualmente sua atuação política no Distrito Federal, onde é cotada para disputar uma vaga ao Senado. Nos bastidores, integrantes do partido admitem que existe cautela para evitar que ela ganhe protagonismo nacional e acabe ofuscando Flávio dentro do campo bolsonarista.
Interlocutores afirmam, ainda, que Jair Bolsonaro prefere que o filho represente diretamente o grupo político na disputa presidencial.
Aliados relativizam resultado do Datafolha
Lideranças do PL tentaram demonstrar tranquilidade após a divulgação da pesquisa. “Perfeitamente igual imaginávamos”, afirmou o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante. O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) também minimizou a diferença entre Lula e Flávio. “Achei que seria pior. Quatro pontos de diferença não é nada”, declarou.
Já o ex-ministro Marcelo Queiroga avaliou que o resultado demonstra força política do senador. “Em 2022, nessa época, diziam que Lula ganhava no primeiro turno”, disse. O deputado Carlos Jordy (PL-RJ) afirmou que o impacto foi menor do que o esperado. “Do jeito que estavam falando, parecia que a campanha já tinha acabado. Houve uma oscilação pequena, algo normal de um momento de crise, mas fácil de reverter”, afirmou.
Na mesma linha, o ex-deputado Lafayette de Andrada (PL-MG) considerou positivo o desempenho do senador diante da exposição negativa do caso. “Na minha avaliação está ótimo. Com essa avalanche no noticiário em cima do Flávio e permanecer empatado tecnicamente, acho muito positiva”, declarou.
Centrão amplia cautela com Flávio
Dentro da federação União Brasil-PP, o ambiente é de crescente desconforto. Embora dirigentes considerem a queda nas pesquisas algo esperado após a crise, existe preocupação com o risco político de um apoio formal à candidatura de Flávio Bolsonaro.
O presidente do PP, senador Ciro Nogueira, resumiu a percepção ao comentar o levantamento. “Era o que esperava”, afirmou. A tensão aumentou após declarações de Flávio Bolsonaro sobre a operação da Polícia Federal que atingiu Ciro Nogueira no contexto das investigações relacionadas ao banco Master. A PF investiga suspeitas de pagamentos mensais feitos por Daniel Vorcaro ao dirigente do PP, hipótese negada pelo senador.
Durante um evento em Santa Catarina, no último dia 8, Flávio Bolsonaro buscou se afastar politicamente do aliado. “Não é porque as pessoas têm proximidade comigo que eu vou ter que responder pelos atos delas”, declarou. Na quinta-feira (21), Ciro Nogueira reagiu e afirmou que, “se for culpado”, Flávio Bolsonaro “terá que ser punido exemplarmente”.
Nos últimos dias, integrantes da federação União Brasil-PP procuraram aliados próximos de Flávio Bolsonaro para avaliar o grau de envolvimento do senador com Daniel Vorcaro e medir o risco de novos desdobramentos da investigação.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece na liderança em todos os cenários de primeiro turno testados pela pesquisa Futura/Apex divulgada nesta sexta-feira (22). Os dados foram publicados originalmente pela CNN Brasil e indicam vantagem de Lula tanto contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) quanto diante da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL).
No principal cenário apresentado pelo levantamento, Lula registra 42,7% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro soma 35,6%. A disputa é seguida por um grupo de candidatos tecnicamente empatados dentro da margem de erro. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), aparece com 3,9%, seguido pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), com 3,3%.
Na sequência, surgem Renan Santos (Missão), com 1,7%; Cabo Daciolo (Mobiliza), com 1%; Augusto Cury (Avante), com 0,9%; e Aldo Rebelo (DC), com 0,4%. Os votos brancos, nulos e eleitores que afirmaram não votar em nenhum candidato representam 7,8%, enquanto 2,8% dos entrevistados disseram estar indecisos.
A pesquisa também simulou um cenário sem Flávio Bolsonaro. Nesse caso, Lula amplia a liderança e alcança 39% das intenções de voto. Romeu Zema aparece em segundo lugar, com 13,3%, seguido de perto por Ronaldo Caiado, que marca 13,1%.
Os demais nomes testados nessa configuração foram Renan Santos, com 3,1%; Cabo Daciolo, com 2,9%; Augusto Cury, com 2,6%; e Aldo Rebelo, com 1,6%. Brancos, nulos e ninguém somam 18,3%, enquanto os indecisos chegam a 6,1%.
Em outro cenário avaliado pela Futura/Apex, Michelle Bolsonaro substitui Flávio Bolsonaro como representante do PL. Lula permanece na dianteira, com 40% das intenções de voto. Michelle aparece em segundo lugar, com 27,4%.
Nesse mesmo cenário, Romeu Zema registra 13,3%, enquanto Ronaldo Caiado tem 13,1%. Augusto Cury e Renan Santos aparecem empatados com 2% cada. Cabo Daciolo soma 1,3% e Aldo Rebelo registra 0,4%. Os votos brancos, nulos e ninguém totalizam 9,7%, e 3,1% dos entrevistados afirmaram não saber em quem votar.
De acordo com a metodologia divulgada pelo instituto, foram entrevistados 2 mil eleitores em 878 cidades brasileiras entre os dias 15 e 20 de maio. As entrevistas ocorreram por telefone. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
A pesquisa foi financiada pela própria Futura/Apex e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-06529/2026.
A Polícia Federal deflagrou, nesta quinta-feira (21/5), a Operação Arthros, com o objetivo de desarticular organização criminosa responsável por desvio de recursos públicos e por financiamento ilícito de campanhas eleitorais nas eleições municipais de 2024, no Maranhão.
As investigações identificaram um esquema com empresas de fachada, com contratos simulados e com notas fiscais frias, de modo a desviar os recursos para campanhas eleitorais. O grupo também operava mediante contas bancárias de terceiros e realizava outras práticas típicas de lavagem de dinheiro.
A apuração revelou que, nos 15 dias que antecederam o pleito eleitoral de 2024, foram movimentados valores superiores a R$ 1,9 milhão, com a distribuição de mais de R$ 1,2 milhão a candidatos e a intermediários. Há indícios de que parte significativa desses recursos tenha origem em contratos públicos, desviados para fins eleitorais. Até o momento, foram identificados vários candidatos beneficiados pelo esquema, em diversos municípios do estado.
Por determinação do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão (TRE-MA), foram cumpridos 11 mandados de busca e apreensão, além do afastamento dos sigilos bancário, fiscal e telemático dos investigados; afastamento de quatro servidores públicos e indisponibilidade de bens no valor de R$ 2 milhões. As diligências foram realizadas nas cidades maranhenses de São Luís, de Paço do Lumiar, de Barreirinhas, de Codó, de Matões; e em Teresina, no Piauí.
Os investigados poderão responder pelos crimes de caixa dois eleitoral, de corrupção eleitoral, de lavagem de dinheiro, de organização criminosa, bem como crimes contra a Administração Pública e desvio de recursos públicos.
A operação da Polícia Federal teve como um dos alvos o ex-secretário de Articulação Política do governo Carlos Brandão, Rubens Pereira, o Rubão, pai do deputado federal Rubens Pereira Junior (PT).
Em nota distribuída à imprensa, Rubão se mostrou surpreso com a busca e apreensão feita em sua residência nas primeiras horas da manhã desta quinta-feira.
O analista político Fabiano Lana afirmou que a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República representa uma combinação de “soberba, erro de cálculo, irresponsabilidade ou burrice” por parte da família Bolsonaro diante das revelações envolvendo o Caso Master e a relação do parlamentar com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Em análise publicada no jornal Estado de S. Paulo, Lana sustenta que Flávio Bolsonaro iniciou sua campanha presidencial já carregando um passivo político relevante, marcado não apenas pelas investigações relacionadas ao Banco Master, mas também por antigas controvérsias envolvendo suspeitas de rachadinha e ligações com milicianos do Rio de Janeiro.
Segundo o articulista, o senador tinha plena consciência dos riscos políticos ao aceitar disputar o Palácio do Planalto. Ainda assim, decidiu seguir adiante com apoio dos irmãos e, “em tese”, do ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Ora, quando aceitou se lançar candidato à presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro, por óbvio, tinha total consciência do passivo Master que pesava contra sua trajetória”, escreveu Fabiano Lana.
O analista também criticou a estratégia do clã Bolsonaro de tentar inviabilizar outros nomes da direita considerados mais competitivos eleitoralmente contra o presidente Lula. Segundo ele, os bolsonaristas apostaram que o antipetismo seria suficiente para garantir a eleição de qualquer candidato ligado à família.
“Ridicularizaram quem cogitou alternativas fora da família para enfrentar um candidato forte como o presidente Lula”, destacou.
Fabiano Lana observou ainda que Flávio chegou a liderar numericamente algumas pesquisas recentes, apesar de sua trajetória política considerada limitada. Para o articulista, a sucessão de revelações sobre os vínculos do senador com Daniel Vorcaro pode comprometer definitivamente sua candidatura.
O texto relembra que Flávio Bolsonaro inicialmente negou qualquer contato com Vorcaro. Depois, afirmou que as conversas se restringiam à tentativa de obtenção de recursos para o filme sobre Jair Bolsonaro, chamado Dark Horse. Mais tarde, vieram à tona informações de que o senador esteve pessoalmente com o banqueiro poucos dias após sua libertação provisória.
“Finalmente, sabemos que Flávio esteve com Vorcaro, na mansão do banqueiro, dias após sua libertação provisória, quando já era mais do que sabido que se tratava do arquiteto do maior escândalo financeiro da história do Brasil”, escreveu Lana.
O articulista também questiona o grau de envolvimento da família Bolsonaro nas tratativas com o banqueiro. “Que certeza de impunidade moveu Flávio? Ele agiu sozinho? Seus irmãos e o pai conheciam a história toda?”, indagou.
Fabiano Lana descreveu ainda o clima entre aliados do senador como um “funeral” durante as tentativas de explicação sobre o encontro com Vorcaro. Para ele, o episódio expõe o desgaste político do bolsonarismo num momento decisivo da disputa presidencial.
Ao citar o versículo bíblico “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda”, o analista afirma que a família Bolsonaro tentou destruir alternativas políticas no campo antipetista para manter o controle absoluto sobre a direita brasileira.
Apesar da crise, Lana reconhece que o cenário político brasileiro permanece imprevisível. Segundo ele, caso Flávio Bolsonaro consiga sobreviver politicamente às denúncias e ao Caso Master, o episódio poderá se tornar “um exemplo singular de resiliência e reviravolta” da política nacional.
O colunista conclui afirmando que a família Bolsonaro conseguiu manter influência sobre parte significativa do eleitorado ao sustentar a narrativa de polarização permanente contra o PT e o presidente Lula.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliou sua vantagem em diferentes cenários da eleição presidencial de 2026, segundo levantamento divulgado pela AtlasIntel em parceria com a Bloomberg. Os dados indicam estabilidade de Lula, enquanto o senador Flávio Bolsonaro registrou queda após a repercussão do vazamento de áudios enviados ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Lula aparece com 47% das intenções de voto no principal cenário de primeiro turno testado. Flávio Bolsonaro surge em segundo lugar, com 34,3%, após perder 5,4 pontos percentuais em relação ao levantamento anterior. Renan Santos marca 6,9%, seguido pelo governador de Minas Gerais, Romeu Zema, com 5,2%, e Ronaldo Caiado, com 2,7%.
A sondagem também simulou disputas sem a presença de Flávio Bolsonaro. Nesse cenário, Lula mantém cerca de 47% das intenções de voto, enquanto Romeu Zema sobe para 17%. Ronaldo Caiado aparece com quase 14%, e Renan Santos reúne 8%.
Outro cenário analisado pela AtlasIntel substitui Flávio Bolsonaro pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Nesse caso, Lula permanece com 47% das intenções de voto. Michelle registra 23,4%, enquanto Romeu Zema alcança 10%. Renan Santos aparece com 7,8%, e Ronaldo Caiado soma 6%.
Os números do segundo turno também indicam crescimento da vantagem de Lula diante de todos os adversários testados. Segundo a pesquisa, o presidente está sete pontos percentuais à frente de Flávio Bolsonaro, dez pontos acima de Romeu Zema e nove pontos à frente de Ronaldo Caiado. Contra Renan Santos, Lula abre vantagem de 19 pontos percentuais no cenário com maior índice de indecisos, votos brancos e nulos.
Na simulação direta entre Lula e Flávio Bolsonaro, o presidente avançou 1,4 ponto percentual e chegou a quase 49% das intenções de voto. Flávio, por sua vez, caiu seis pontos após a divulgação do áudio envolvendo Daniel Vorcaro, recuando de 47,8% para 41,8%. O percentual de eleitores indecisos ou que afirmam votar em branco ou nulo aumentou 4,6 pontos percentuais.
A pesquisa também avaliou cenários sem a participação de Lula. Nessa hipótese, tanto o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, quanto o vice-presidente Geraldo Alckmin aparecem à frente de Flávio Bolsonaro. Haddad lidera por 3,7 pontos percentuais, enquanto Alckmin teria vantagem de 4,1 pontos sobre o senador.
Rejeição – A pesquisa também mostra o crescimento da rejeição de Flávio Bolsonaro após a divulgação do áudio com Vorcaro. Segundo o levantamento, a rejeição ao ex-senador cresceu dois pontos percentuais torna o pré-candidato com o maior nível de eleitores que dizem que não votariam de jeito nenhum. Lula vem logo em seguida, com 50,6%, patamar semelhante a abril.
Além disso, cresceu o medo da vitória de Flávio entre os eleitores. O receio da vitória de Flávio aumentou 2pp desde abril, enquanto o da reeleição do presidente caiu quase 7pp em um mês, após a divulgação do áudio de Flávio com Vorcaro.
O levantamento Atlas ouviu 5.032 respondentes, no período de 13 a 18 de maio; a margem de erro é de 1 ponto percentual para mais ou para menos. O registro TSE é BR-06939/2026.
A tentativa do Congresso Nacional de estender um tapete vermelho jurídico para aliviar a situação dos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro colidiu frontalmente com a opinião pública. Pesquisa Genial/Quaest divulgada neste domingo (17) revela que a maioria dos brasileiros rejeita taxativamente qualquer tipo de clemência ou manobra legal para abrandar as punições da extrema-direita. De acordo com o levantamento, 52% da população é contra a redução das penas, expondo o isolamento da narrativa parlamentar que tenta normalizar o ataque à democracia.
O resultado do estudo joga luz sobre o abismo existente entre o sentimento da sociedade e as recentes movimentações em Brasília. No último dia 30 de abril, o Legislativo federal uniu forças para derrubar o veto integral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao famigerado projeto que altera as regras de dosimetria penal no país. A medida, costurada nos bastidores pela bancada oposicionista, foi desenhada sob medida com um objetivo central: pavimentar o caminho para beneficiar diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados mais radicais.
Os dados coletados pela Quaest entre os dias 8 e 11 de maio, em uma amostragem que ouviu 2.004 cidadãos presencialmente em todo o território nacional, deixam claro que a tese do “perdão” não empolga o país. A margem de erro do estudo é de dois pontos percentuais, com um nível de confiança de 95%. Quando questionados diretamente sobre a flexibilização das punições para os envolvidos nas depredações e na tentativa de quartelada na Praça dos Três Poderes, 52% dos entrevistados se posicionaram firmemente contra a redução das penas, enquanto 39% se declararam a favor do benefício e outros 9% não souberam ou não responderam.
O dado que mais assusta os estrategistas do bolsonarismo está no comportamento dos eleitores que se declaram independentes, aqueles que não se alinham piamente nem ao governo e nem à oposição. Nesse grupo crucial para qualquer pretensão eleitoral, 58% se posicionaram contra o alívio das penas, enquanto apenas 31% se disseram favoráveis e 11% não souberam ou não responderam. Além disso, a percepção de que a lei é um casuísmo político é amplamente majoritária, uma vez que 54% dos entrevistados afirmam categoricamente que o chamado “PL da Dosimetria” foi promulgado com o único propósito de blindar e beneficiar Jair Bolsonaro. Para 34%, o texto buscou contemplar a totalidade dos condenados, ao passo que 12% preferiram não responder.
Com a derrubada dos vetos presidenciais por deputados e senadores, as novas e maleáveis regras de dosimetria passam a integrar o ordenamento jurídico nacional. O texto aprovado funciona quase como um manual de impunidade para crimes políticos de gravidade extrema.
Entre as principais alterações técnicas apontadas por juristas, o dispositivo impede expressamente a soma de condenações quando os crimes forem considerados da mesma natureza, permitindo que condutas gravíssimas, como a abolição violenta do Estado Democrático de Direito e o golpe de Estado propriamente dito, sejam fundidas para diminuir o tempo total de reclusão. Como se não bastasse, a nova lei amplia generosamente a progressão de regime, permitindo que os criminosos migrem para o semiaberto após cumprirem meros 16,6% da pena, o que equivale a pouco mais de um sexto do total.
Ao aplicar o veto total na época, o presidente Lula utilizou pareceres técnicos para argumentar que a proposta violava os preceitos mais básicos da Constituição Federal, comprometia a necessária individualização das penas e configurava uma interferência indevida e perigosa do Poder Legislativo sobre as atribuições do Judiciário. O alerta republicano, contudo, acabou atropelado pelo pragmatismo político de uma base parlamentar fisiológica, ideológica e ultraextremista.
A aprovação do pacote de bondades gerou um impacto imediato no planejamento jurídico de Jair Bolsonaro. Atualmente cumprindo prisão domiciliar por questões de saúde, após ter o quadro agravado por uma grave pneumonia contraída recentemente, o ex-presidente calcula que as novas regras permitirão sua progressão do regime fechado para o semiaberto em um prazo estimado de dois a três anos.
A execução dessa “janela de liberdade”, no entanto, não será automática e promete novos embates jurídicos. A chamada remição de pena terá de ser obrigatoriamente atestada por um juiz da Execução Penal, após manifestações formais das equipes de defesa e do Ministério Público.
A própria legislação impõe travas: caso o condenado cometa qualquer tipo de “falta grave” durante o cumprimento do período de reclusão, o magistrado tem a prerrogativa legal de anular até um terço de toda a remição obtida. Diante de uma opinião pública amplamente hostil às manobras de impunidade, o Judiciário estará sob os holofotes de uma sociedade que rejeita, por ampla maioria, a capitulação diante dos golpistas.
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu nesta sexta-feira (15) abrir uma investigação separada e sigilosa para apurar supostos direcionamentos de emendas parlamentares a projetos culturais, entre eles o filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). As informações são da CNN Brasil.
A decisão ocorre a partir de uma denúncia enviada ao STF no início do ano pela deputada federal Tabata Amaral. Segundo a parlamentar, emendas parlamentares poderiam estar sendo usadas para marketing eleitoral e para financiar a produção cinematográfica sobre Bolsonaro.
De acordo com a denúncia, haveria um grupo de empresas que, embora tenham nomes diferentes, funcionariam como uma única organização. Tabata afirma que essas companhias compartilhariam o mesmo endereço, a mesma infraestrutura e a mesma dona.
A deputada sustenta que parlamentares do PL teriam enviado R$ 2,6 milhões por meio de “emendas pix” a uma dessas empresas. Depois disso, segundo a denúncia, teriam contratado serviços de marketing eleitoral de outras companhias pertencentes ao mesmo grupo.
Entre os nomes citados como autores das emendas estão Alexandre Ramagem, Carla Zambelli, Bia Kicis e Marcos Pollonio. Mário Frias, ex-secretário de Cultura no governo Bolsonaro e produtor do longa, também teria feito aportes a outra empresa do grupo e, em seguida, contratado serviços de campanha eleitoral de uma companhia relacionada.
Segundo Tabata, a produtora responsável pelo filme sobre Bolsonaro integra esse conjunto de empresas. A denúncia foi inicialmente anexada a um processo que já tramita há anos no STF e trata da necessidade de transparência e rastreabilidade das emendas parlamentares.
Ao receber a representação, Flávio Dino pediu manifestações da Câmara dos Deputados e de três deputados do PL. Até a decisão desta sexta-feira, apenas Mário Frias ainda não havia se pronunciado.
Com a nova determinação, Dino retirou a denúncia do processo principal sobre emendas e abriu uma investigação em separado. A apuração, segundo a decisão, deverá tramitar sob sigilo.
Filme voltou ao centro da crise após revelações sobre Vorcaro
A decisão do ministro ocorre em meio à ampliação da controvérsia envolvendo o filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. O caso ganhou nova dimensão depois que o jornal The Intercept revelou que o senador Flávio Bolsonaro (PL) teria pedido cerca de R$ 130 milhões ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, para financiar o projeto.
Inicialmente, Flávio negou a informação e classificou a acusação como mentirosa. Depois, admitiu ter solicitado recursos a Vorcaro, mas afirmou não ver irregularidade no fato de um filho buscar investimento privado para uma produção sobre o próprio pai.
Tanto Flávio Bolsonaro quanto Mário Frias defendem que o filme é financiado exclusivamente com recursos privados. Em manifestação sobre o projeto, foi afirmado que “‘Dark Horse’ é uma superprodução em padrão hollywoodiano, com 100% de capital privado, ator de primeira linha, além de diretor e roteirista de renome internacional”.
Suspeita envolve emendas, marketing e produção cultural
O ponto central da investigação aberta por Dino será verificar se houve ou não direcionamento indevido de emendas parlamentares para empresas relacionadas entre si e se parte desses recursos teve conexão com ações de marketing eleitoral ou com a produção do filme sobre Bolsonaro.
A apuração também deverá examinar a estrutura societária e operacional das empresas mencionadas na denúncia, além do caminho percorrido pelas verbas públicas enviadas por meio das emendas.
O caso se insere em um debate mais amplo no STF sobre a transparência das emendas parlamentares, especialmente as chamadas “emendas pix”, modalidade que permite a transferência direta de recursos a estados e municípios, mas que tem sido alvo de questionamentos sobre controle, rastreabilidade e fiscalização.
Com a decisão de abrir um procedimento próprio, o ministro Flávio Dino separa a apuração específica sobre os projetos culturais e o filme de Bolsonaro do processo geral sobre emendas. A medida indica que o Supremo deverá tratar o caso de forma autônoma, com análise própria dos documentos, das respostas dos parlamentares citados e de eventuais novas diligências.
A investigação passa a tramitar em sigilo e poderá esclarecer se os repasses apontados na denúncia tiveram finalidade pública regular ou se foram usados de forma indireta para beneficiar interesses políticos, eleitorais ou privados ligados ao entorno bolsonarista.