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Sarney, um senador do Amapá que quase nunca é visto por lá

Maria Lima
(O GLOBO)
Casa de Sarney no Amapá: em 2013, ele apareceu apenas duas vezes por lá
BRASÍLIA
– Pouco habitada nos últimos 24 anos, a casa da Avenida Carlos Gomes, em
Macapá, modesta para os padrões do ilustre dono, passou por uma reforma e deve
voltar a ser mais visitada neste ano eleitoral pelo ex-presidente da República
e hoje senador José Sarney (PMDB-AP). Após sair da presidência com a maior
rejeição registrada por um mandatário na história recente do país, Sarney teve
que buscar uma vaga de senador, em 1990, pelo então emancipado Amapá, porque o
PMDB lhe negou a legenda em sua terra natal, o Maranhão. Dos amapaenses, Sarney
já ganhou três mandatos, mas a atenção dispensada por ele ao eleitorado de seu
domicílio eleitoral é mínima, de acordo com políticos do estado. Sarney diz que
só decidirá a partir de março se disputará outro mandato e lista benefícios que
aprovou ou ajudou a aprovar para o Amapá.
Na casa
onde funciona seu domicílio eleitoral em Macapá morava, até recentemente, um
aliado seu, José Carlos Alvarenga, diretor do Sebrae. Mas hoje a casa está
fechada. As outras residências do senador estão na Praia do Calhau e na Ilha do
Curupu (MA) e na antiga Península dos Ministros, no Lago Sul, em Brasília.
As idas
de Sarney ao Amapá são tão raras que, quando ele chega lá, quase sempre de
jatinho, para passar algumas horas ou no máximo três dias, é um acontecimento
que ganha as manchete nos jornais locais. Uma vizinha da casa de Sarney em
Macapá conta:.
– Minha
querida, as visitas de Sarney aqui já viraram piadinhas! É motivo de riso. Moro
perto da casa dele e nunca o vi por aqui. E olha que ando bastante! A casa está
sempre fechada, mas como este ano tem eleição, já começamos a ver um
movimentozinho – disse Cássia Danúbia Soares Ribeiro, moradora da Avenida
Carlos Gomes.
Os
eleitores e políticos do Amapá reclamam do pouco esforço dele, mesmo com o
poder que tem no governo, para liberar suas emendas parlamentares ao Orçamento
para obras no estado. Pelo levantamento da execução orçamentária de 2013, ele
destinou emendas para Macapá (R$ 2 milhões), Mazagão (R$ 7,5 milhões) e Santana
(R$ 2,5 milhões), entre outras. Apesar de autorizadas, nenhum centavo foi pago.
A única emenda dele empenhada e paga foi uma de caráter nacional, para a
Fundação Pioneiras Sociais ( R$ 743 mil), que administra a rede do Hospital
Sarah Kubitischek.
Sarney
costuma visitar o Amapá em datas importantes. No primeiro ano como senador
eleito do Amapá, passou seu aniversário lá. Depois, aboliu essa ideia. Nos
meses de dezembro ainda vai ao estado para fazer uma já tradicional festa com
políticos e jornalistas num hotel da cidade, que inclui o sorteio de brindes.
O ano que
Sarney passou mais tempo no Amapá , cerca de 30 dias, foi na campanha de 2006,
quando quase perdeu para a então desconhecida Cristina Almeida (PSB). Precisou
gastar muita sola de sapato no corpo a corpo. Em 2010, no dia da eleição
presidencial, foi a Macapá de jatinho, por volta das 7h da manhã. Votou e, ao
meio-dia, voltou para o Maranhão. Em 2013, ele esteve lá só duas vezes, em
abril e dezembro.
– As
promessas dele não saíram do papel. O aeroporto de Macapá teve a obra parada em
2004 porque o dinheiro sumiu e hoje só tem lá o esqueleto. Quando fui
governador, Sarney não permitiu que o governo federal repassasse um centavo
para o estado e só governei com os repasses constitucionais. – disse o senador
João Alberto Capiberibe (PSB), seu adversário político.
Terceiro
senador pelo Amapá, Randolfe Rodrigues (PSOL) tem boa relação com Sarney, mas
cobrou:
– Não
julgo a escolha do povo do Amapá que elegeu o Sarney, mas ele deveria ter mais
respeito com os eleitores e ir ao estado com mais frequência. Poderia ir pelo
menos uma vez ao mês. E se ele disser que atua pelo Amapá aqui em Brasília,
está mentindo. Desde 2011, não o vejo em reunião de bancada.
Sarney
lista obras que apoiou
Recolhido
no Maranhão, onde dona Marly Sarney se recupera de um acidente, Sarney
respondeu, por meio de sua assessoria: disse que vai ao Amapá todas as vezes
que é preciso e que não decidiu se será candidato novamente. Ele diz que sua
sua aprovação é alta no estado e faz uma avaliação positiva de seus mandatos de
senador pelo Amapá. “Tenho residência em Macapá, Rua Carlos Gomes, 920. A lei
permite a todas as pessoas terem várias residências e escolher uma delas para
domicílio eleitoral. Estou sempre no Amapá, todas as vezes que é preciso. Fui eleito
para representar o Amapá em Brasília, onde é o Senado”, disse por e-mail.
Sarney
listou obras para o Amapá como de sua iniciativa: “Quase tudo que foi criado
nesses 24 anos no Amapá tem a minha ajuda. Foram iniciativas minhas a Área de
Livre Comércio Macapá-Santana, o carro-chefe da economia amapaense, responsável
por 80% dos empregos. Criei a Zona Franca Verde, foi minha iniciativa três
hidroelétricas que estão construindo no Amapá, a 1ª começa a funcionar em junho
deste ano”, disse, citando ainda o trabalho pela liberação de verbas para obras
de urbanização da capital e interior.
Sobre a
acusação de que persegue adversários locais, afirmou por e-mail: “Nunca impedi
qualquer repasse. Apoiei a eleição do Capiberibe ao governo e todas as outras
obras que ele fez pelo estado. Quanto ao prefeito da capital, Clécio Luís,
temos ótimas relações e também sempre procuro ajudar a cidade (…) Tenho apoio
das maiores lideranças do estado. Tenho hoje, na última pesquisa, de dezembro,
50,6% das intenções de voto do eleitorado, os outros candidatos reunidos tem
22%”.

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