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Nas eleições de 2014, Brasil fez opção conservadora

“O aforismo de Gramsci permeou e permeia o momento
político brasileiro: o velho está morrendo, mas o novo não nasceu ainda”,
escreve analista ao traduzir os resultados eleitorais de 2014

 
 
 
 

Antônio Carlos de Medeiros *

Nada de ruptura para uma terceira via. Esse foi o
recado das urnas nas eleições presidenciais. No primeiro turno, o país escolheu
o caminho da primeira (PSDB) ou da segunda via (PT). No final, ganhou a segunda
via, com Dilma Rousseff. Predominou a conservação da institucionalidade
vigente, por dentro dos partidos políticos e da democracia representativa.
Nesse sentido, foi uma opção conservadora. A grande maioria que deseja a
mudança escolheu as alternativas já conhecidas. Paradoxos políticos
brasileiros.

Venceu a proposta de continuidade com mudança.
Ambos, Aécio Neves e Dilma Rousseff, disputaram a primazia do capital
simbólico, o da capacidade de condução das mudanças. Mas acabou vencendo a
candidatura que conseguiu transmitir maior capacidade de entrega pela via da
continuidade. Opção conservadora por aí também.

Essa forma tortuosa de buscar o novo, uma espécie
de terceira via em algum ponto futuro, mas através de atores políticos já
conhecidos, sem rupturas e via transição, não é novidade histórica no Brasil.
Não temos história e cultura de rupturas. Prevaleceu sempre a experiência de
mudança por acumulação, e não por ruptura. Mais uma vez, agora. Ao fim e ao
cabo, o aforismo de Gramsci permeou e permeia o momento político brasileiro: o
velho está morrendo, mas o novo não nasceu ainda.

As expectativas da mudança e da entrega, em
circunstâncias históricas de polarização política e fragmentação da
representação política no Congresso Nacional, colocam gigantescos desafios para
o arco de alianças que venceu as eleições presidenciais e para a nova coalizão
politicamente dominante que vai dirigir o país nos próximos quatro anos. Tempos
fraturados. Ajuste fiscal, conflitos distributivos, baixo crescimento, espada
da inflação. Necessidade imperativa de capacidade de concertação.

As costuras para a formação do novo governo e a
articulação da agenda para o país, juntamente com a composição das direções da
Câmara e do Senado, deverão dar nitidez à natureza e ao conteúdo da coalizão.
Para que as expectativas de diálogos sociais, federativos e empresariais
obtenham respostas que apontem para o horizonte das mudanças. Enquanto isso, a
tensão política circunscreve o processo político. Para 2015, não há ainda
cenário de diminuição da temperatura política. É pesada a carga de demandas
sociais, econômicas e políticas sobre o novo governo. É multilateral,
transversal , vertical e horizontal a miríade de mediações políticas a serem
conduzidas.

E é aí que aparece, forte, a expectativa do papel e
postura de Lula. Com sua liderança e capacidade de mobilização, de mediação, e
de influência na agenda do país, Lula mais uma vez deverá ter a presença da
imanência. Um poder imanente. Nem tão longe, nem tão perto. O que poderá, outra
vez, resultar em efeito político moderador, com dimensão real de poder
moderador. Com sua capacidade extraordinária de artífice da conciliação, da
mediação e do consenso, Lula vai precisar estar mais presente na retaguarda da
presidente neste segundo mandato.

Eleita sobretudo para entregar, e para entregar
mudanças, Dilma Rousseff está sob escrutínio e vigilância da oposição ampliada
pelas urnas e, principalmente, sob o olhar dos brasileiros que desejam mais
acesso aos serviços públicos, menos filas, mais segurança, mais mobilidade,
menos inflação, mais crescimento. As expectativas e demandas são muito grandes.
As cobranças serão constantes e crescentes. Tempos difíceis.

* Antônio Carlos de Medeiros é
cientista político.

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