Depois de quase três anos compartilhando algumas das benesses que a Esplanada dos Ministérios oferece, o PP determinou no ano passado que seus filiados deixassem os cargos que ocupavam no governo Lula.
Na época, André Fufuca, que chefiava o mais visível deles, a pasta do Esporte, se recusou a cumprir a ordem, foi afastado da direção na-cional do partido e perdeu o comando da legenda no Maranhão – mas não se arrepende.
Afinal, o apoio de Lula será fundamental para o seu projeto político – o petista teve nada menos que 71% dos votos válidos no estado em 2022.
Assim, mais uma vez na contramão do partido, que articula uma aliança nacional com a oposição, Fufuca afirma, sem hesitar, que estará no palanque do PT.
A VEJA ele fala desse aparente conflito, ressalta que Lula é o melhor presidente que o Brasil já teve, avalia que não há como escapar da polarização e que, como parlamentar, assinaria o requerimento de criação de uma CPI para investigar o caso Master, escândalo que acabou tragando dirigentes do PP.
A seguir, os principais trechos da entrevista, concedida pouco antes de o ministro se desincompatibilizar do cargo para disputar as próximas eleições, o que ocorreu na terça-feira 31.
•Desobedecer à orientação de seu partido e permanecer no governo foi uma boa decisão?
“Perdi a vice-presidência nacional, cargo que eu ocupava havia oito anos. Perdi a presidência estadual, em que eu também estava desde 2016, mas não me arrependo, porque gratidão se paga com gratidão. O presidente Lula confiou em mim quando me colocou no ministério e me ajudou a fazer um bom trabalho. Eu não poderia abandoná-lo na hora que ele vai precisar de mim.”
•O PP ficará ao lado do governo ou da oposição na próxima eleição presidencial?
“Defendo que a gente apoie Lula formalmente, mas isso não é uma decisão minha. Estou falando como deputado federal. Caberá à cúpula do partido, junto aos diretórios, definir. Mas preciso ressaltar que o melhor caminho para o Brasil hoje é a reeleição de Lula.
É o presidente da República que recuperou os programas sociais, que criou novos programas. É o presidente que entregou a menor taxa inflacionária da história, a menor taxa de desemprego. É o presidente que criou a CNH social, que isentou do imposto de renda quem ganha até 5000 reais. É o presidente que tem programas consolidados que beneficiaram a população.”
•Por que, apesar de tudo isso que o senhor destaca como positivo, a rejeição do presidente continua alta e a popularidade, baixa?
“Em qualquer eleição polarizada, o crescimento tanto da aprovação quanto da rejeição se baseia na aprovação e rejeição do outro lado. Mas uma coisa eu asseguro: a popularidade do presidente Lula vai crescer a partir do instante em que o eleitor precisar definir o que vai ser melhor para o seu futuro. Tenho certeza que o presidente Lula vai disparar quando a população for comparar os governos.
A campanha de outubro vai confrontar o passado e o presente, especialmente o que está acontecendo no presente com perspectivas para o futuro.”
•Uma candidatura de centro não seria uma alternativa para pôr fim à polarização?
“Acho que nesta eleição não. Esta vai ser uma eleição em que os polos, mais uma vez, vão ser os protagonistas. Não há como fugir disso.”
•Qual a avaliação o senhor faz da candidatura de Flávio Bolsonaro?
“É natural que haja uma candidatura de direita. Repito: o Brasil vai comparar o passado com o presente. Vai comparar como era o governo há quatro anos e como é hoje. E o governo Lula é melhor em qualquer cenário que se apresente.
Tenho certeza que a população que não pertence a nenhum dos extremos, quando for a hora de decidir, vai decidir pelo melhor. E o melhor para o Brasil é o presidente Lula.”
•Existe a possibilidade real de seu partido, o PP, ficar ao lado de Flávio Bolsonaro, inclusive indicando o candidato a vice-presidente da chapa. Como o senhor avalia esse cenário?
“Num partido do tamanho do PP, que tem 27 diretórios estaduais consolidados e mais de cinquenta parlamentares, é impossível que haja apenas um pensamento. O PP sempre tem espírito democrático. Eu apoio o presidente Lula, seja qual for a outra possibilidade.
Vou apoiar Lula independentemente de meu partido indicar alguém para compor a outra chapa – se é que vai indicar. Meu candidato se chama Lula.”
•Alguns aliados do governo consideram a possibilidade de o presidente não disputar a eleição, particularmente depois das últimas pesquisas, que mostram o crescimento da candidatura de Flávio Bolsonaro. Acha isso possível?
“O presidente Lula não vai desistir de disputar a reeleição em hipótese alguma. O presidente é candidato, está fisicamente muito bem, talvez seja a melhor eleição da vida dele. Está com disposição, está com coragem para enfrentar o debate e vai enfrentar. A desistência dele não é cogitada. Ele será o candidato e vai ganhar essa eleição.”
•O senhor é a favor do fim da reeleição para presidente da República, como passou a defender o candidato de oposição?
“Eu estou no meu quarto mandato de deputado federal e serei candidato a senador. Então, não posso cobrar que acabe a reeleição de um lado enquanto, do outro lado, sou beneficiado por ela. Sou favorável à manutenção da reeleição em todos os níveis.”
•O governo reclama de um suposto exagero no controle que o Congresso exerce sobre o Orçamento federal, via emendas, em um sistema muito criticado por falta de transparência. Como deputado, como o senhor vê essa questão?
“A maneira como o Legislativo conduz seu trabalho é reflexo de um amadurecimento da democracia. A gente faz parte de uma democracia de coalizão. Por isso, não vejo exagero. O Parlamento exerce seu papel, assim como o Executivo e o Judiciário também. O Supremo está analisando es-sa questão.
O ministro Flávio Dino, do STF, tem uma longa história no Legislativo e no Executivo. Ele vai decidir sobre a legalidade desse processo da maneira mais justa possível, com isenção e, principalmente, com imparcialidade.”
•O senador Ciro Nogueira, presidente de seu partido, foi apontado pelo banqueiro Daniel Vorcaro como um dos principais amigos dele. O senhor assinaria uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o caso Master?
“Sim, sem problemas.”
•Qual será a maior dificuldade de Lula nas eleições deste ano?
“A maior dificuldade em um país polarizado é o radicalismo. Torço muito, inclusive, para que a eleição deste ano seja pacífica. Mas o radicalismo faz aflorar sentimentos ruins, como a violência, a intolerância. O maior desafio é o seguinte: encontrar a melhor maneira de lidar com o ra-dicalismo e com a polarização.”
•Uma eventual anistia aos condenados por tentativa de golpe no 8 de Janeiro não teria ajudado a pacificar os dois lados?
“Anistia, não. Atentar contra a democracia não é brincadeira. É algo muito grave. O que se tentou fazer no Brasil foi um ato contra os poderes, contra as instituições. Visava abolir o Congresso Nacional, o Poder Judiciário. Queriam fortalecer um poder único à frente do país. O último ato que teve essa intenção deu numa noite que durou 21 anos.”
•O senhor não considera que houve exageros nas penas aplicadas pelos ministros do Supremo aos envolvidos no 8 de Janeiro?
“Não cabe a mim comentar decisão judicial. Decisão judicial se cumpre, simples assim. Acho que a resposta do Supremo Tribunal Federal foi muito positiva em relação a isso. Hoje as pessoas vão pensar duas vezes antes de fazer algo daquele tipo.”
•O senhor está deixando o Ministério do Esporte, depois de mais de dois anos. Qual o legado que o governo Lula deixará para a área neste terceiro mandato?
“Sem sombra de dúvida, fizemos o maior investimento da história no esporte. Quando assumi o ministério, a gente tinha 500 obras paradas. Hoje nós temos mais de 2500 obras como a Arena Brasil, um conjunto de complexos com campo de futebol, quadras e espaços para a prática de esportes em áreas que nunca tiveram estrutura esportiva alguma.
As áreas atendidas pelo projeto são de alta vulnerabilidade social, com IDH baixo. O maior legado que vamos deixar é a democratização dos esportes.”
•O governo é criticado por se empenhar em taxar as bets mas não dar a devida atenção a um problema derivado da legalização dos jogos, como o vício. Esse problema não foi subestimado pela atual gestão?
“Não é verdade. Uma das maiores preocupações do governo é exatamente coibir as práticas ilegais. Temos ações envolvendo vários ministérios para levar à população campanhas de conscien-tização sobre o perigo que os jogos representam. Há parcerias entre vários órgãos para combater o vício. Essa foi uma preocupação do ministério e deve ser prioridade de qualquer um que assumir esse cargo.”
•Por que o racismo continua sendo uma chaga nos campos de futebol?
“O combate ao racismo também é prioridade do ministério desde o primeiro dia. Temos, em parceria com o Ministério da Justiça, uma campanha para abolir dos estádios os torcedores que praticarem atos de racismo.
Além disso, editamos uma portaria que pune qualquer confederação, de qualquer esporte, que se omitir em relação ao racismo. Ela perde o direito de receber recursos das loterias se não punir os responsáveis. É preciso rigor contra as pessoas desprezíveis que continuam se comportando dessa maneira.
Grandes eventos, como a Copa do Mundo e a Olimpíada, costumam deixar um legado. No Brasil, por que isso não aconteceu? Houve legados importantes. As Arenas, por exemplo.
Para a Copa do Mundo de futebol feminino do ano que vem não teremos gastos com estrutura logística, porque a estrutura logística está aí. E nem com estrutura hoteleira ou algo do tipo.
O Brasil vai mostrar a força das mulheres, o fortalecimento da equidade de gêneros, e, principalmente, deixar claro ao mundo que o país combate feminicídio, combate violência contra a mulher. Deixaremos um legado social para as próximas gerações.”
0 Comentários