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Notícias
  • Jorge Vieira
  • 12/jan/2014

Veja – Mapa do tráfico: Bonde dos 40 e PCM disputam venda de crack em São Luís

Facções criminosas que nasceram da rivalidade entre detentos do interior do Estado e da capital hoje disputam o monopólio do tráfico de drogas
 
Da Veja
Felipe Frazão, de São Luís
 
As duas principais facções criminosas do Maranhão, o Bonde dos 40 e o Primeiro Comando do Maranhão (PCM), travam uma batalha dentro e fora dos presídios do Estado. Nas ruas da Região Metropolitana de São Luís, a capital maranhense, os grupos rivais desafiam a polícia diariamente na disputa pelo controle de favelas e pontos de venda de crack. Para o governo maranhense e a cúpula da Polícia Civil, a guerra do tráfico está por trás da onda de homicídios e latrocínios no Estado.
 
Os líderes do Bonde dos 40, a sanguinária facção que promoveu decapitações no presídio de Pedrinhas, estarão na lista de detentos que serão transferidos para presídios federais. As Secretarias de Justiça e Administração Penitenciária e da Segurança Pública já prepararam uma lista e a submeteram à avaliação da Vara de Execuções Penais da Justiça maranhanse. Entre os prováveis transferidos estão os criminosos Allan Kardec Dias Costa e Giheliton de Jesus Santos, o “Gil”, Hilton John Alves Araújo, o “Praguinha”, Jorge Henrique Amorim Martins, o “Dragão”, e Wilderlei Moraes, o “Paiakan”.
 
“Estamos percebendo que o PCM está tentando aproveitar que os líderes do Bonde estão presos para dominar a área deles”, diz o subdelegado-geral da Polícia Civil, Marcos Affonso.
 
“Ainda não há uma hegemonia entre eles, as facções brigam por espaço aqui em São Luís, que é o foco do tráfico”, afirma a superintendente de Polícia Civil da capital e região metropolitana, Katherine Chaves.
 

Influências – Inspirados e próximos ao Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, os integrantes do PCM criaram a facção com criminosos do interior do Maranhão, os chamados “baixadeiros”, por atuarem na Baixada Maranhense. Eles montaram um estatuto próprio baseado no do PCC – com dizeres como “irmão ajuda irmão” – e organizaram uma hierarquia própria. Os “soldados” (bandidos com menos cinco anos no crime organizado) e os “torres” (aqueles com mais tempo na quadrilha), só agem segundo as ordens do “conselho”, a cúpula da facção. Quem não obedece é considerado traidor e condenado à morte. Os que passam pelo sistema prisional tem o hábito de tatuar no antebraço as palavras “paz, justiça e liberdade” – lema do PCM.
 
O PCM mantém o controle da venda de crack e maconha nos bairros do Coroado, Coroadinho e Pocinha. A droga já é refinada em “laboratórios” do Maranhão. A quadrilha também pratica assaltos a banco e roubos, mas age com mais discrição. “O que os sustenta mais é o tráfico, mas eles fazem muitos assaltos pesados também”, diz o subdelegado-geral.
 
A facção mais violenta é o Bonde dos 40, que reúne – com menos organização – uma série de bandos que atuavam em bairros diferentes e distantes de São Luís, sobretudo as áreas de palafitas. As áreas de domínio do grupo criminoso são citadas em letras de funk maranhense, como o bairro de Fátima e Vila Embratel. A inteligência da Polícia Civil já identificou que o bando ampliou sua organização, criando um conselho de líderes. Eles também estão formando pontes com traficantes do Rio de Janeiro, segundo a polícia.
 
“O Bonde dos 40 começou desorganizado, como uma revolta contra o PCM, que queria exclusividade no fornecimento de drogas”, diz Affonso. “Eles tentaram se unir, mas o Bonde não aceitou.”
 
Em julho, a Polícia Civil apreendeu um livro com a contabilidade do tráfico. Nele, os investigadores acharam registros de quanto a quadrilha arrecadava por mês: 150.000 reais com a venda de crack e assaltos. O dinheiro é usado em pagamento de advogados, para sustentar o tráfico e ajudar as famílias de “irmãos” – como eles se chamam – presos. O inimigo é o tradicional “alemão”, termo muito usual no Rio de Janeiro.
 
Em escutas telefônicas, o setor de inteligência da Polícia Civil identificou que os líderes do Bonde dos 40 ordenaram por um “salve geral” os ataques a vinte ônibus, delegacias e decretaram a morte de policiais militares. A onda de terror terminou com a morte da menina Ana Clara, de seis anos. “É uma retaliação, tentativa de intimidar e desestabilizar a polícia”, diz Katherine.

  • Jorge Vieira
  • 11/jan/2014

Maranhão tem mais foragidos nas ruas do que criminosos em presídios, aponta CNJ

Carlos Madeiro
Do UOL

Com uma
população carcerária 30% maior que a capacidade, a segurança pública do
Maranhão teria um problema ainda maior caso a polícia cumprisse os 5.539 os
mandados de prisão expedidos pela Justiça e que nunca foram cumpridos. Os dados
são do Banco Nacional de Mandados de Prisão do CNJ (Conselho Nacional de
Justiça).

O número
de pessoas procuradas pela polícia é maior que o total de presos no Estado, que
chegou, em dezembro, a 4.725, segundo dados da Secretaria de Estado da Justiça
e Administração Penitenciária. Hoje, o Estado do Maranhão possui 3.607 vagas
–-deficit de 1.118 vagas.
Em nota,
a AMB (Associação de Magistrados do Brasil) informou que a quantidade de
pessoas foragidas revela a falta estrutura do poder Executivo, que não prende
os foragidos e não consegue controlar a população carcerária.
“Demonstra,
além da ineficiência do aparato de segurança estadual, que o deficit de vagas
seria muito maior, caso tais mandados fossem cumpridos”, informou o texto.
Segundo o
governo do Estado, o maior culpado pela crise penitenciária –que resultou em
62 mortes entre 2013 e início deste ano– é a quantidade presos que ainda
aguardam julgamento e que representam quase metade do total de detidos nos
Estado.
Segundo a
AMB, o Maranhão é o Estado com menor taxa de encarceramento do país “o que
confirma que o caos penitenciário não decorre do excesso de presos –
definitivos ou provisórios”.
“Inferno”
Segundo o
juiz da Vara de Execuções Penais, Fernando Mendonça, o número de mandados
expedidos pode ser ainda maior, chegando a 12.000.
“Muitos
dos que têm mandados expedidos nem sabem que eles existem, são pessoas
condenadas por crimes, mas nunca foram encontradas, por exemplo. A polícia não
cumpre por um motivo ou outro, e o sujeito segue livre”, afirmou.
O juiz
disse que a situação de superlotação e de mandados em aberto é conhecida há
tempos pelo governo, que nunca se preparou para o crescimento da população
carcerária.
“Têm
anos e anos que o número de vagas sem mantém estável. Uma das alegações que é
feita é que a gente, do judiciário, solta muito. E esses com mandado, se forem
presos, viraria um inferno”, disse.
Para o
presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Maranhão, Mário Macieira,
a crise no sistema prisional “não é novidade” e é fruto, além da
falta de investimento na estrutura dos presídios no Estado, do descontrole ao
interior das unidades, dominadas pelos detentos.
“Temos
de pensar em medidas como neutralizar as facções que dominam os presídios,
criar novas vagas no sistema prisional e descentralizar a execução das penas, a
concentração dos presos favorece essa situação de violência. Também é urgente a
realização de concurso para Agentes Penitenciários e para policiais
militares”, afirmou.
Faltam policiais
Ao UOL,
o secretário-adjunto de Segurança Pública do Maranhão, Laércio Costa, afirmou
que existe uma grande carência de policiais militares. Segundo ele, existem
hoje 6.700 policiais militares, quando seriam necessários mais de 15.000.
“Esses
6.700 são para atender os 217 municípios. Nós temos uma população de 6 milhões
de habitantes, o que dá um média de um policial para cada 890 pessoas, enquanto
a ONU (Organização das Nações Unidas) recomenda um para cada 350. Estamos com
esses policiais em fase final de treinamento, para aumentar o efetivo, e a
governadora já se comprometeu a chamar mais 1.000 em março”, disse.
Em
entrevista coletiva nesta quinta-feira (9), a governadora Roseana Sarney
defendeu a PM maranhense e garantiu que ela é uma das mais eficientes do país.
“[A
crise traz] uma imagem que atrapalha o nosso Estado, que não é violento. Nossas
pessoas são ordeiras. Estamos agindo, e fiquem certos que isso não vai
acontecer de novo. Se acontecer, serão penalizados, como foram agora. Em 30
horas, pegamos todos os responsáveis pelos atentados. Muito poucos os crimes
que não foram elucidados no Maranhão. Desafio um Estado fazer elucidação de
crime mais rápida que aqui”, afirmou.

  • Jorge Vieira
  • 11/jan/2014

Jornal Estado de S. Paulo diz em editorial que ‘Roseana revelou ao País um despreparo absoluto’

O
despreparo da governadora 

É perda de tempo, a esta altura, discutir se o Maranhão é um caso extremo do
conhecido pesadelo prisional do País ou se o terror que se abateu sobre São
Luís na semana passada – quando, cumprindo ordens vindas do Complexo
Penitenciário de Pedrinhas, na periferia da capital, bandidos incendiaram um
ônibus, matando uma menina de 6 anos – poderia ter atingido, ou poderá atingir
a qualquer momento, outras cidades que concentram grandes contingentes do meio
milhão de presos no Brasil, quase sempre em condições igualmente desumanas.
Basta registrar que o roteiro da tragédia maranhense foi o já visto: sangrentos
conflitos entre gangues pelo controle de cadeias, com mortes a granel,
mobilizam forças policiais para “pacificar”, com a costumeira brutalidade, os
cárceres convulsionados; em represália e para fazer cessar a intervenção, os
chefes das facções em confronto mandam destruir patrimônio e atacar civis,
indiscriminadamente; as autoridades aparentam de tomar medidas reparadoras,
anunciando planos que não passam de variações dos que os precederam e decerto
serão tão ineficazes como aqueles.
Ocioso também é discutir os prós e contras da intervenção federal em Pedrinhas,
que a Procuradoria-Geral da República estaria inclinada a solicitar. Ela
simplesmente não ocorrerá. De um lado, pelas conhecidas resistências do
Judiciário à iniciativa – um pedido do gênero, para o presídio Urso Branco, em
Rondônia, lembra o noticiário, aguarda decisão do Supremo Tribunal Federal
(STF) desde 2008. De outro lado, porque não há a menor hipótese de que a
presidente Dilma Rousseff, responsável última pelo ato, intervirá em algum
Estado, por que motivo for, neste ano eleitoral – e ainda por cima no feudo do
oligarca José Sarney, com quem o antecessor de Dilma se amancebou politicamente
para carrear ao Planalto o apoio do PMDB.
O que não se pode deixar de ressaltar, isso sim, é o despreparo absoluto da
governadora maranhense, Roseana Sarney, para entender e lidar com a crise cujo
combate é sua responsabilidade objetiva. Por sinal, ela só invocou essa
condição no único momento em que se exaltou na entrevista que só na quinta-feira
ela se dignou conceder, ao lado do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.
Ele havia sido despachado a São Luís para que não se dissesse que a chefe, a
presidente da República, se omitia diante da tragédia e deixava a aliada à
mercê de sua incompetência.
Quando uma repórter perguntou ao ministro se o silêncio de Dilma se devia à sua
preocupação em não arranhar as relações do governo com o PMDB e a família
Sarney, Roseana o livrou da enrascada para livrar o seu clã. “Isso não existe
como família”, se pôs a desmentir o óbvio, de cara fechada e indicadores
erguidos.
“Eu sou a governadora. Se tiverem de penalizar alguém, eu sou a responsável.”
Note-se, então, com que mentalidade ela responde pela situação. Declarou-se
“chocada” com o “inexplicável” número de mortos -62 – no interior do presídio
desde 2013. No ano anterior foram 4. Até setembro passado, eram já 39 – o que,
pasme-se, “estava dentro do limite que se esperava”.
Trinta e nove homicídios em nove meses não seriam, pois, uma aberração. Os
criminosos como que cumpriram a cota com que a governadora já contava. Até aí,
em suma, tudo normal. Se a essa macabra contabilidade não se tivessem
acrescentados desde então outros 23 corpos – vários decapitados -, a vida
seguiria tranqüila no Palácio dos Leões, a sede do governo, em meio a finas
iguarias como aquelas descritas em dois recentes editais de licitação (um,
cancelado) para abastecer as despensas e a adega palacianas – lagostas, caviar,
champanhe, vinhos “de primeira qualidade” e scotch 12 anos.
É, o Maranhão vai bem – “um Estado que está se desenvolvendo, que está
crescendo”, comemorou Roseana na coletiva, antes de emendar: “E um dos
problemas que está (sic) piorando a segurança é que nosso Estado está mais
rico, mais populoso também”. Em breve, de toda maneira, os crimes e castigos no
Estado deixarão de ser de sua alçada. Em abril, ela renunciará para disputar
uma vaga no Senado e garantir o lugar da família no Congresso. Foi uma
decisão do pai. 

  • Jorge Vieira
  • 11/jan/2014

Deu na Veja: A vitória da barbárie no Maranhão

Como
o desgoverno de anos resultou nos horrores dos últimos dias, desde os bandidos
degolados na penitenciária até a menina Ana Clara, de 6 anos, que morreu
queimada, vítima de ataque criminoso a um ônibus urbano

Leslie
Leitão e Alana Rizzo
A
vida da menina Ana Clara Santos Souza nunca deveria ter cruzado a de W.T.F., o
bandido conhecido como Porca Preta, que aparece na foto abaixo empunhando um
revólver. Aos 6 anos de idade, Ana Clara se preparava para ir à escola pela
primeira vez. Adorava vestir-se de princesa e andar de bicicleta. Tinha acabado
de dispensar as rodinhas da sua, e por esse motivo andava muito orgulhosa. Era
um universo sem ponto de contato com o mundo sinistro habitado por Porca Preta.
O bandido, de 17 anos, é um dos membros do Bonde dos 40, a sanguinária facção
criminosa que disputa o mercado de drogas de São Luís e domina parte das
cadeias do Maranhão à base de métodos que incluem a decapitação de adversários
e o estupro de suas mulheres. O que fez com que Ana Clara e Porca Preta se
encontrassem no último dia 3 não foi o azar, mas uma combinação de duas
tragédias: a situação nacionalmente calamitosa das prisões brasileiras e a
gestão particularmente funesta do problema pelo governo do Maranhão, onde o
descaso, o apadrinhamento e o descontrole elevaram o horror a uma escala nunca
vista.
Parte
desse horror transbordou na semana retrasada para uma rua da periferia da
capital maranhense. Da prisão de Pedrinhas, partiu a ordem para que bandidos
atacassem ônibus em circulação na cidade em represália à entrada da Polícia
Militar na cadeia depois de mais uma rebelião sangrenta. Um dos alvos
escolhidos foi o carro em que haviam embarcado Ana Clara, sua mãe, Juliane
Souza, e a irmã de 1 ano, Lorane. Porca Preta foi o encarregado de render o
motorista, enquanto seus comparsas espalhavam gasolina no interior do veículo.
Juliane, internada em estado grave, contou à mãe o que houve em seguida.
Segundo disse, ela e as filhas já estavam na porta de entrada quando alguém
riscou um fósforo e o ônibus explodiu em chamas. As três foram atingidas.
Juliane atirou-se sobre a caçula e, com as costas e os braços queimando,
rastejou com ela por baixo da roleta em direção à porta de trás. Achava que a
filha mais velha a seguia. Ana Clara, no entanto, havia se desgarrado e permaneceu
na parte da frente, onde as chamas ardiam altas. Com 95% do corpo queimado, ela
ainda conseguiu sair do carro. São excruciantes as imagens feitas pelas câmeras
de segurança do ônibus, que mostram a menina perambulando em choque, sozinha,
com o corpo em chamas. Ana Clara morreu na última segunda-feira.
“O Maranhão vai muito bem”, disse três dias depois a governadora do estado,
Roseana Sarney, em entrevista coletiva. “Um dos problemas que estão piorando a
segurança é que o estado está mais rico, o que aumenta o número de habitantes.”
A entrevista girou em torno da série de motins no Complexo de Pedrinhas, que
deu origem ao ataque ao ônibus em que viajava Ana Clara e, em 2013, resultou em
sessenta presos mortos, ao menos cinco degolados. Roseana disse ainda que o que
houve em Pedrinhas foi “inexplicável”. A governadora conseguiu errar em cheio
em todas as declarações. Primeiro, o Maranhão, estado que sua família governa
há cinco décadas, não vai nada bem. Tem o segundo pior índice de analfabetismo
do Brasil e a pior renda per capita. Seu IDH só perde para o de Alagoas, e a
mortalidade infantil é a segunda maior do país. Depois, o que aconteceu em
Pedrinhas está longe de ser inexplicável.
A
administração do complexo, como a de todas as prisões do estado, foi
terceirizada para duas empresas – uma delas pertence a um velho apaniguado dos
Sarney: Luís Cantanhede Fernandes. Sócio de Jorge Murad, marido da governadora,
ele foi o homem que, em 2002, saiu em socorro da então candidata à Presidência
Roseana depois que a Polícia Federal encontrou 1,3 milhão de reais em dinheiro
vivo no escritório da Lunus, consultoria dela e de Murad. Na tentativa de
livrar do naufrágio a candidatura de Roseana, Cantanhede assinou às pressas um
contrato fajuto de empréstimo para justificar a origem da dinheirama. No ano
passado, sua empresa, a Atlântica Segurança – juntamente com a VTI, de
Fortaleza -, recebeu 71 milhões de reais para cuidar das cadeias do Maranhão.
Nenhuma das duas tinha experiência no ramo.
A
decisão de contratar empresas como essas para cuidar de um setor tão explosivo
não chega a surpreender, tendo partido de uma governante cuja família há tanto
tempo se dedica a cuidar com desvelo de assuntos de seu próprio interesse e de
seus amigos. O que escandaliza no episódio é o fato de esses contratos terem
sido mantidos mesmo diante dos resultados colhidos. O inferno de Pedrinhas
supera com folga tudo o que já se viu no trágico cenário das cadeias
brasileiras.
Manoel Marques – Reprodução – Francisco
Silva/Jornal Pequeno
TUDO E MAIS UM POUCO - Nada do que existe no
Complexo de Pedrinhas é estranho ao sistema penitenciário brasileiro, mas lá
tudo é exacerbado: as instalações são imundas (foto à esq.) e tomadas por lixo
e ratos, o despreparo e a corrupção entre os agentes podem ser medidos pela
dimensão dos arsenais encontrados a cada revista mais rigorosa (ao centro) e o
domínio de facções criminosas que disputam o controle do tráfico resulta
frequentemente em batalhas sangrentas. A última, em 17 de dezembro, terminou
com três presos decapitados e torturados (à dir.)
Na
semana passada, a reportagem de VEJA percorreu cinco das oito unidades do
complexo – com capacidade para 1 500 presos e população de 2  700. Nas celas de
6 metros quadrados espre­mem-se até dez homens, obrigados a disputar espaço com
os ratos, atraídos pelos detritos acumulados em pilhas por todo canto. No pátio
de uma das cadeias do complexo, o esgoto a céu aberto se mistura a montes de
entulho e mato crescido. Algumas paredes dão a impressão de que poderiam ser
derrubadas com um chute, de tão decrépitas.
Mas
a parte das instalações em Pedrinhas ainda é melhor do que a de segurança. Os
monitores encarregados de revistar os presos e administrar as visitas têm
treinamento de uma semana e salário de 900 reais, menos de um terço do que
ganham os agentes penitenciários do estado. Para aferir a eficiência do modelo,
basta olhar a foto do arsenal apreendido em uma recente invasão da polícia:
mais de 300 facas, facões e canivetes, além de munição para pistolas. Celulares
circulam abertamente, e a cantina do complexo – que vende até cerveja – está
sob o controle dos detentos. Os líderes das duas facções reinantes – o Primeiro
Comando do Maranhão e o Bonde dos 40 – decidem quem vive e quem morre dentro da
cadeia. E morre-se muito lá. No fim da matança mais recente, em 17 de dezembro,
os presos se encarregaram de produzir e divulgar imagens estarrecedoras. Um dos
vídeos mostrava corpos sobre o chão cobertos de ferimentos e sem alguns pedaços
da pele. Três deles tiveram a cabeça cortada e elas foram colocadas lado a
lado. Em uma das fotos que constam de trechos inéditos do relatório feito pelo
Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ao qual a reportagem de VEJA teve acesso,
um detento separa do corpo uma cabeça decapitada e a segura pelos cabelos, como
um troféu. Em outra, dois homens chutam essa mesma cabeça de um lado para o
outro, como se estivessem jogando futebol. O relatório inclui ainda a foto de
pedaços de um corpo encontrado no lixo de Pedrinhas e dispostos sobre a bancada
do Instituto Médico-Legal de São Luís – mais uma provável vítima do método
conhecido em Pedrinhas como “picadinho”, destinado a fazer “desaparecer”
corpos.
O
acirramento das disputas entre as facções maranhenses e o banho de sangue que
ele produziu no interior das penitenciárias não pegaram de surpresa o governo
de Roseana Sarney. Inquéritos policiais instaurados em 2008 já indicavam alguns
dos horrores em curso nos presídios. Em 2010, o CNJ fez a Roseana uma série de
recomendações para conter a violência nas cadeias. Repetiu-as, em vão, em 2011.
Em 2012, o então presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Carlos Ayres
Britto, pediu à governadora que recebesse representantes do CNJ. Foi ignorado.
Nos últimos dois anos, a Secretaria de Direitos Humanos do governo federal
recebeu 157 denúncias sobre o sistema penitenciário do Maranhão, das quais 46
sobre tortura. “Inexplicável”, governadora?
Cadeias
são um mal necessário. Prender bandidos tem, sim, influência direta na queda da
criminalidade. Essa correlação já havia sido verificada em diversos trabalhos
internacionais. No ano passado, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(Ipea) publicou um estudo feito em mais de 5 000 municípios de todos os estados
brasileiros com dados de nove anos. O trabalho concluiu que, para cada elevação
de 10% no número de presos, o de assassinatos diminui 0,5%, em média. Escrevem
os pesquisadores: “Os resultados comprovam que prender mais bandidos e aumentar
o policiamento são armas válidas para reduzir a taxa de homicídios,
independentemente do que ocorra com outras variáveis socioeconômicas”.
Acontece
que, desde o fim do século XVIII, o suplício deixou de ser uma prática
aceitável. A punição aos criminosos perdeu a característica de “vingança
social” para incorporar a de “reforma do indivíduo”. O objetivo passou a ser
prender para evitar novos crimes e reduzir a reincidência. À luz desses
conceitos, confinar o preso em jaulas onde não se deixaria um animal é,
inclusive, contraproducente, como atesta um estudo recente da Itália. Ele
analisou a vida em liberdade de 25 000 presos soltos em 2006 para abrandar o
superlotado sistema carcerário daquele país. Os que tinham saído de presídios
com uma alta taxa de mortes eram mais propensos a cometer novos crimes. Na
fórmula matemática do estudo, o crescimento de 1 ponto nas mortes per capita
atrás das grades aumenta em 4,2% a probabilidade de o criminoso ser pego
novamente em delito. Mais do que ineficaz para os propósitos a que se destina,
o tratamento degradante dos sentenciados extrapola o contrato firmado com a
Justiça. Aos condenados, reserva-se a pena de reclusão, não o inferno.
Marlene Bergamo/Folhapress
LAGOSTA, DÓLARES E CAVIAR – Em meio à crise,
o governo Roseana Sarney encomendou lagosta. Criticado, substituiu o pedido por
caviar. A governadora (ao lado do ministro José Eduardo Cardozo) entregou a
administração dos presídios do estado ao amigo e sócio da família que, em 2002,
a socorreu quando a PF encontrou 1,3 milhão de reais na sede da empresa de seu
marido
Para
o Palácio do Planalto, o governo do Maranhão está despreparado para resolver
sozinho a crise no sistema carcerário estadual. A gestão sofreria de “autismo”
e de “completo distanciamento da realidade”, como teria demonstrado a licitação
para compra de lagosta e outros quitutes, suspensa depois de revelada pela
Folha de S.Paulo e substituída por outra… que solicita caviar e uísque
escocês. Embora assessores de Dilma Rousseff digam que Roseana Sarney perdeu
capital eleitoral, a presidente não pretende dispensar o apoio da governadora e
de seu pai, o ex-presidente do Senado e cacique peemedebista José Sarney. Foi
por isso que a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, evitou defender
a intervenção federal no estado e foi por esse motivo também que, diante de
tanto sangue derramado em território maranhense, Dilma limitou suas
manifestações a uma lacônica mensagem postada na sexta-feira no Twitter. O
texto diz que ela acompanha “com atenção a questão da segurança no Maranhão”.
Ana Clara não andará mais de bicicleta, não se vestirá de novo de princesa nem
irá à escola neste ano pela primeira vez. Mas é tranquilizador saber que a
presidente acompanha tudo com atenção. E que o Maranhão vai muito bem,
obrigado.
Com
reportagem de Alexandre Aragão, Pieter Zalis, Cintia Thomaz e Daniel Pereira

  • Jorge Vieira
  • 11/jan/2014

Preso de Pedrinhas diz que transferências devem gerar novos atentados

Beto
Macário e Carlos Madeiro
Do UOL, em São Luís

Presos do
CDP (Centro de Detenção Provisória), considerado o mais violento do complexo
penitenciário de Pedrinhas, em São Luís, ameaçam iniciar uma nova onda de
ataques caso as transferências anunciadas pelos governos do Estado e federal
sejam realizadas.
O UOL
teve acesso, com exclusividade, ao CDP, na tarde desta sexta-feira (10),
durante visita da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa. Foi a
primeira equipe de reportagem a entrar no local desde que eclodiu a crise no
sistema prisional do Maranhão, que tem como foco o complexo de Pedrinhas.
Segundo a
Secretaria de Estado da Justiça e Administração Penitenciária, o CDP tem 698
presos, mas só tem capacidade para 402. Foi lá que três presos foram
decapitados, em dezembro de 2013. Foi de lá também que partiram as ordens de
ataques a ônibus no último dia 3. Por conta da tensão no local, a defensoria pública suspendeu os atendimentos no local.
Segundo
um dos detentos, que prestou depoimento à comissão, os ataques aos ônibus
ocorreram para que a PM (Policia Militar) –que ocupou o
presídio no último dia 27
— deixasse o local. O temor agora é
que a transferência seja efetivada.
“Eles
tão com medo dessa transferência, eles não estão sabendo quem vai. Mas sei que,
conforme seja, nos primeiros dias vai ter de novo [ataques] para tentar colocar
pressão na população, na sociedade, na imprensa, no pessoal da secretaria, mas
não vai ser assim [como esse] não. Tem uns aí que não podem mais cair por ali,
pois não acataram a ordem, que era tirar todo mundo dos ônibus”, disse o
detento.
Segundo o
preso, a ordem era não matar ninguém, mas o atentados resultaram em quatro
feridos e a morte de uma criança de seis anos.
“Não
era para matar ninguém. A ordem era só para era só para tocar fogo em ônibus,
para chamar a atenção e tirar a PM daqui. Era isso que eles queriam”,
afirmou.
Segundo
a  presidente da comissão, Eliziane Gama (PPS), o clima de tensão aponta
para a possibilidade de novas rebeliões, justamente pelos presos acusados de
praticar os atentados.
“Eu
percebi esse risco por conta da superlotação. O pessoal da triagem, que é o
pessoal preso recentemente, inclusive o pessoal suspeito dos atentados, está
numa situação mais complicada pelo nível de periculosidade. Precisaria dar
atenção diferenciada”, afirmou.
Briga entre facções
O detento
afirmou ainda que a ordem de incendiar os ônibus partiu do Bonde dos 40, uma
das duas facções criminosas que dominam o complexo. Por conta da morte da criança,
e de outra ordem que não teria sido cumprida, um dos presos acusados de atacar
o ônibus está marcado para morrer.
“Eles
estão brigando porque duas ordens que foram feitas e não foram cumpridas. Uma
foi matar a criança, e a outra lá no Vila Nova, que deram ordem para o
‘Babaninha’ e fizeram errado. Era para não matar um pessoal lá”, afirmou.
O detento
ainda afirmou que a presença da PM no presídio conferiu mais ordem ao local. 
“A PM ajuda muito, eles têm medo. Em 2002, quando cheguei aqui, tinha
polícia em todo canto. Ficavam aqui e não tinha morte não. Todo tempo teve
respeito”, disse.
O UOL visitou
celas e conversou com presos, que relataram uma série de problemas. O prédio
aparenta ter boas condições, mas as celas são superlotadas. Em uma delas, havia
22 presos, onde há capacidade para apenas oito.
As celas
são abafadas e extremamente quentes. Outra reclamação é que faltam roupas por
muitos meses para eles, assim como aguardam andamento de processos.
Em meio
ao aperto e rostos cobertos, muitos presos relatam que temem pela vida. Um
preso fez questão de mostrar uma marca no dorso que, segundo ele, teria sido
causada por um tiro de bala de borracha dado à queima-roupa. A denúncia é contra
integrantes da Força Nacional, que está no local desde o dia 27.
Em uma
das celas, dois presos mostram ferimentos no rosto. Eles não relataram o
motivo. Na mesma cela, eles relatam que a água do banheiro é suja.

  • Jorge Vieira
  • 11/jan/2014

Deu no Estadão: Protesto contra falta de segurança reúne 500 pessoas no Maranhão

Grupo, que percorreu cinco quilômetros, pedia a desmilitarização da polícia
Ernesto Batista – Especial para O Estado

SÃO LUÍS – Aos gritos de “SOS Maranhão, não é boato não, é realidade”, cerca de 500 estudantes e militantes de esquerda fizeram uma manifestação nesta sexta-feira, 10, no centro de São Luís para protestar contra a falta de segurança no Maranhão e o que eles chamaram de “falência dos serviços públicos” no Estado.

Os manifestantes pediam a desmilitarização da polícia e focaram na onda de ataques que ocorreu na última sexta-feira, 3, na capital, que deixou um saldo de cinco ônibus queimados, duas delegacias atacadas, uma criança morta e outras quatro pessoas feridas.

 

O grupo se reuniu em frente à Biblioteca Benedito Leite, na praça Deodoro, tradicional ponto de encontro de manifestações estudantis da capital maranhense, por volta das 17h e percorreu um trajeto de quase cinco quilômetros.

 
Um dos manifestantes era o estudante Diego Viana, 23 anos, apontado como uma das lideranças da passeata, que foi organizada pelo movimento “Acorda Maranhão”, via redes sociais, e que, em junho de 2013, havia levado cerca de 15 mil pessoas para as ruas da capital. “O movimento é pacífico e não tem uma liderança. O que queremos é melhores condições de vida que o governo estadual não está conseguindo nos garantir hoje”, disse.
 
A passeata foi acompanhada por agentes municipais de trânsito e passou pelas ruas Rio Branco e Jensen Müller e pela Avenidas José Sarney e Beira mar até chegar aos fundos do Palácio dos Leões, onde foi barrada por um esquema de segurança montado pela Polícia Militar, com homens do Esquadrão de Polícia Montada e do Batalhão de Polícia de Choque.
 
Reflexos
Contido pelo engarrafamento gerado pela manifestação, o motorista de ônibus Nonato Vieira, 40 anos, disse que o horário era inconveniente. “Sei que a segurança pública tem que ter providências, mas neste horário tem muito trabalhador cansado, querendo voltar pra casa e esta passeata impede”, comentou.
 
Já o estudante de geografia Ulisses Vasconcelos dos Santos, 21 anos, comentou que foi participar do protesto porque já foi vitima de assaltos e não concorda com a política adotada pelo governo estadual. “É muita falta de respeito e ainda tentam me convencer que foram gastos R$ 131 milhões no sistema penitenciário. Queria saber onde foi parar este dinheiro de fato”, questionou Santos.

  • Jorge Vieira
  • 11/jan/2014

Secretário esclarece uso de recursos do Ministério da Saúde

 

O secretário municipal de Saúde, Cesar Felix, esclareceu as informações divulgadas em parte da mídia local sobre a Unidade de Queimados. Segundo ele, os recursos repassados pelo Ministério da Saúde, informados pelo DataSus, são referentes ao atendimento a pacientes vítimas de queimaduras nas unidades da rede municipal, não sendo, portanto, especificamente para a Unidade de Tratamento de Queimados.
 
“Esse mesmo procedimento do Ministério é adotado em relação à rede estadual, que também não possui unidade especializada. Os valores regulares repassados pelos atendimentos citados obedecem à tabela do Sistema Único de Saúde (SUS) referente ao atendimento, seja ele de Urgência e Emergência bem como das Internações Hospitalares”, esclareceu o secretário.
Cesar Felix lembra ainda que as duas unidades de urgência e emergência da capital, os hospitais Djalma Marques (Socorrão I) e Clementino Moura (Socorrão II), possuem portas abertas para qualquer tipo de atendimento e, portanto, atende também as vítimas de queimaduras. Ainda segundo ele, para instalação da Unidade de Tratamentos de Queimados no Socorrão II é necessária uma estrutura própria, uma vez que o centro necessita de uma equipe de profissionais capacitadas e treinadas para prestar esse tipo de atendimento, entre eles uma equipe de cirurgiões plásticos. No momento, o Clementino Moura conta com oito profissionais da especialidade no quadro, prontos para dar atendimento aos casos.

O município de São Luís permanece apto para implantar a unidade e a atual gestão trabalhará nesse sentido. Para isso, terá que concluir a construção e aparelhamento do prédio anexo do Hospital Clementino Moura. A gestão do prefeito Edivaldo Holanda Junior trabalha para garantir as condições de instalação do setor, sendo necessária a conclusão da ampliação e reforma do Socorrão II, obra que já está garantida pelo Programa Avança São Luís.

Em relação ao atendimento, o secretário Cesar Felix ressalta que em alguns casos o município tem dado cobertura até mesmo a pacientes que poderiam ser encaminhados para as unidades de saúde da rede estadual.  Ele relata um caso recente, no segundo semestre do ano passado, envolvendo um preso interno do Hospital Nina Rodrigues, vítima de incêndio, atendido no Socorrão II. “Durante todo o tratamento o paciente teve atendimento diário. Foram realizados oito procedimentos no paciente que continuou interno do Nina Rodrigues”, lembra Cesar Felix.

Sobre o caso da menina Ana Clara dos Santos, vítima de um ataque a um ônibus do transporte coletivo na semana passada, o secretário destaca o atendimento diligente da equipe do Socorrão II. Segundo o secretário, a transferência da paciente para a unidade de saúde do estado foi recomendada pela equipe médica do Socorrão II, que ainda não dispõe de UIT pediátrica. Cesar Felix afirma ainda que durante o período em que a criança esteve internada no Clementino Moura foram dispensados todos os serviços de saúde disponíveis. Desde o início, porém, as possibilidades de sobrevivência da menina eram remotas.

O Socorrão II funciona como principal unidade de saúde de casos de traumatologia no estado do Maranhão. Em alguns dos casos há combinação de traumas, entre eles queimaduras de graus variados. “Não podemos fechar aquilo que ainda não existe”, afirma Cesar Felix.

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